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Flamengo: uma nação em vermelho e preto
Os mais de 30 milhões de torcedores do Flamengo espalhados por todo o país formam uma verdadeira nação. Uma nação nada homogênea, assim como o Brasil, composta por pessoas de todos os gêneros, raças, classes sociais, idades. Enfim, não há restrições a quem quiser torcer pelo rubro-negro.
Em Meu Maior Prazer, os jornalistas Carlos Eduardo Mansur e Luciano Ribeiro mostram as mais diversas facetas dessa paixão, que formam, “o mais perfeito extrato da sociedade brasileira”. Na obra, portanto, trazem entrevistas com flamenguistas de diferentes origens e histórias, além, é claro, de ídolos do passado e dos tempos atuais, como Zico, Zagallo, Andrade, Renato Gaúcho, Petkovic, Adriano e muitos outros.
Na entrevista abaixo, Carlos Eduardo Mansur e Luciano Ribeiro falam um pouco sobre o que significa torcer para o Flamengo, suas principais memórias e surpresas do processo de elaboração do livro. Aproveite e confira como será a capa de Meu Maior Prazer, em breve nas livrarias.
O que faz do Flamengo um clube diferente de todos os outros? Por que o torcedor rubro-negro deve ter orgulho de seu clube?
Acima de tudo, o que faz o Flamengo diferente é sua torcida. Não apenas pelo tamanho, por ser a maior do país, mas pelo envolvimento com o clube. A torcida ajudou a construir o perfil de um clube que desperta paixões extremadas, e acima de tudo o perfil de um clube que, como nenhum outro, é uma expressão fiel da sociedade brasileira e carioca. É impossível falar em Rio de Janeiro sem falar em Flamengo, é impossível falar em futebol brasileiro sem falar no Flamengo. Além disso, tem uma composição única entre os clubes brasileiros: é maioria em todas as classes sociais da sociedade carioca, dos mais abastados aos mais pobres. Além disso, é o único clube verdadeiramente nacional, com a maior parte de sua torcida situada fora do Rio de Janeiro. Além disso, somando-se as torcidas dos outros três grandes clubes cariocas, o número não alcança o de torcedores do Flamengo.
Cite um jogo inesquecível na trajetória do Flamengo.
A paixão por um clube está profundamente ligada à vida e à identidade de cada brasileiro. Sendo assim, cada torcedor vive de forma particular o amor por um clube. E se este clube é o Flamengo, dono da maior torcida do país, dono de um universo de seguidores com perfis tão distintos, quase um extrato da sociedade brasileira, é natural que cada torcedor, seja pelo local onde vive, seja pela geração a que pertence, seja pelas experiências pessoais de vida que teve, encontre razões para eleger um jogo ou um momento da vida do clube. Claro que a vitória sobre o Liverpool, por 3 a 0, que deu ao Flamengo o título mundial de 1981, representa o ápice da história rubro-negra e o momento de apogeu da geração comandada por Zico. Mas certamente quem viveu a década de 40 irá lembrar para sempre o gol de Valido, no tricampeonato de 44; quem estava no Maracanã nos anos 50 irá recordar a soberba atuação de Dida no tri de 55; há os que até hoje fecham os olhos e veem a cabeçada de Rondinelli em 1978, na conquista que inaugurou a sequência de títulos do Flamengo de Zico; assim como os mais novos dificilmente deixarão de lembrar o gol de falta de Petkovic no tri de 2001. Enfim, o Flamengo pertence à torcida, a uma torcida heterogênea como o Brasil.
Quais os maiores ídolos da história do clube?
Em alguns clubes, esta pergunta gera discussões. No Flamengo, não. Impossível falar em Flamengo sem falar em Zico, destacadamente o maior ídolo. Mais do que isso, um verdadeiro símbolo do clube, um sinônimo de Flamengo. No entanto, pode-se dizer que uma das razões do impressionante fenômeno de popularidade que o clube representa resulta do fato de ter tido, ao longo de toda a sua história, boa parte dos principais ídolos do futebol brasileiro. Entre os anos 30 e 40, teve Leônidas da Silva e Domingos da Guia, depois surgiu Zizinho que, para algumas gerações, foi melhor do que Pelé. Mais tarde viriam Evaristo, Zagallo e Dida, nos anos 50. No início dos anos 70 começa a surgir a geração Zico que, no fim da década e ao longo dos anos 80, protagoniza a maior sequência de conquistas da história do Flamengo, com jogadores como Leandro, Andrade, Adílio e Júnior. Ainda nesta década, o brilham com a camisa rubro-negra nomes como Bebeto, Renato Gaúcho. Em 1995 o clube contrata Romário e, em 2001, ganha um tricampeonato com jogadores do porte de Edílson, Gamarra e Petkovic.
No processo de elaboração dos livros, houve alguma informação sobre o clube que os surpreendeu?
Deparamos com várias, especialmente durante as entrevistas para a elaboração do livro-memória “Meu maior prazer”. Por exemplo, na entrevista com o radialista e ex-técnico do Flamengo Washington Rodrigues, descobrimos que uma crise entre Romário e a torcida foi resolvida, minutos antes de um jogo, com uma ida do atacante a um bar nas imediações do Maracanã onde torcedores se concentravam. Convenhamos, é algo inimaginável. Nos surpreendeu a forma emocionada como Zagallo, um homem que ganhou quatro Copas do Mundo, falou sobre a conquista do tricampeonato de 2001 pelo Flamengo. Ele chorou e não conseguiu falar. A trajetória de vida de jogadores como Ronaldo Angelim é algo que chama a atenção, também. Outro momento revelador foi a conversa com Petkovic. Certamente, a torcida sequer imagina que o herói do tri de 2001 quase não jogou, pensou em não entrar em campo por causa de problemas salariais no clube. Outra surpresa foi o episódio revelado por Renato Gaúcho sobre a intimidade do time campeão brasileiro de 1987, formado quase que totalmente por estrelas. Numa conversa com o técnico Carlinhos, ele disse claramente que se recusava a cumprir a determinação do treinador de ajudar na marcação aos laterais adversários. Para encerrar a discussão, coube a Zico, a estrela maior, dizer que ele próprio se prontificava a fazer tal marcação. Nas entrevistas com os campeões mundiais de 1981, histórias incríveis sobre os bastidores do melhor time que o Flamengo já teve vieram à tona. Acima de tudo, nos chamou atenção como o Flamengo marcou profundamente a vida de todos estes personagens.
Qual o episódio mais curioso da história do Flamengo?
Numa análise bem ampla, o que mais impressionou foi ver como o Flamengo, desde os seus primeiros dias até hoje, num mundo em que o mercado do futebol mobiliza milhões, sempre conviveu com a crise financeira, com recursos aparentemente escassos. E nunca deixou de vencer, de crescer. No início não tinha campo para treinar. Mais tarde, campeões dos anos 50 nos revelaram que havia atrasos salariais. Atualmente, tais problemas tornaram-se recorrentes. Enfim, a força do clube nunca permitiu que o Flamengo se tornasse menor.
Para terminar, o que acham da dobradinha entre futebol e literatura?
Um futebol tão rico dentro de campo como o brasileiro, merece ter uma produção literária à altura, produzindo memória, registros desta história para futuras gerações. E este é o grande mérito da iniciativa da Editora Leitura.









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